quarta-feira, fevereiro 28, 2007

A rua da rimas


A rua das rimas

A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua de poeta, reta, quieta, discreta,direita,
estreita, bem feita, perfeita,
com pregões matinais de jornais, aventais nos portais, animais e
varais nos quintais;

e acácias paralelas, todas elas belas, singelas, amarelas,
douradas, descabeladas, debruçadas como namoradas para as calçadas;
e um passo, de espaço a espaço, no mormaço de aço baço e lasso;
e algum piano provinciano, quotidiano, desumano,
mas brando e brando, soltando, de vez em quando,
na luz rara de opala de uma sala uma escala clara que embala;
e, no ar de uma tarde que arde, o alarde das crianças do arrabalde;
e de noite, no ócio capadócio,
junto aos lampiões espiões, os bordões dos violões;
e a serenata ao luar de prata (Mulata ingrata que mata...);
e depois o silêncio, o denso, o intenso, o imenso silêncio...

A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua qualquer onde desfolha um malmequer uma mulher
que bem me quer
é uma rua, como todas as ruas, com suas duas calças nuas,
correndo paralelamente, como a sorte diferente de toda gente,
para a frente,
para o infinito; mas uma rua que tem escrito um nome bonito,
bendito, que sempre repito
e que rima com mocidade, liberdade, tranqüilidade:
Rua da Felicidade.

(Guilherme de Almeida)

***

A rua das rimas é um poema raro, agradável, divertido, bem feito. Uma obra prima de Guilherme de Almeida que lembro-me de ter lido em um livro de português na sétima série.

Guilherme de Andrade de Almeida, advogado, jornalista, poeta, ensaísta e tradutor, nasceu em Campinas, SP, em 24 de julho de 1890, e faleceu em São Paulo, SP, em 11 de julho de 1969. Eleito para a Cadeira nº. 15 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Amadeu Amaral, em 6 de março de 1930, foi recebido, em 21 de junho de 1930, pelo acadêmico Olegário Mariano.

2 comentários:

Lilian Barbosa disse...

O autor resumiu o poema em uma busca incessante pelo seu próprio contentamento. Acaba que a rua dos seus sonhos é construída por ele mesmo. À medida que ele corre atrás da felicidade, a rua se completa. Um melhoramento constante que é fruto do seu próprio anseio. Algo infinito, que depende exclusivamente dele.

Não é diferente o que acontece conosco, não é mesmo?
=]

r. silva disse...

isso é que é poesia. o legal é que é que ele chama a rua no começo de "das rimas" e depois lá no fim de "da felicidade", como se fossem sinônimos.