domingo, maio 01, 2005

Versões de mim (Verissimo)

Belissima mensagem! Vale a pena ler, reler e é claro, refletir a respeito. A vida é feita de escolhas, me fez lembrar o filme "O efeito borboleta" (The butterfly effect - 2004), que é baseado no teoria do caos, que tem como metáfora a história da borboleta que ao bater suas asas na América do Sul, poderia causar um tufão na China. Claro que o problema é muito mais complexo, envolve as teorias de Lorenz, abrange equações não lineares, soluções não periódicas, etc.

Ah sim, o texto? O texto tem tudo a ver! Um pequeno ato que você fizer hoje, pode mudar seu futuro por completo. A vida é feita de escolhas, certas ou erradas elas levam a caminhos distintos. O que é certo hoje pode ser errado amanhã e vice versa. A não previsibilidade é a grande magia que se esconde no futuro de cada um de nós. Boa leitura!

Versões de mim - Luiz Fernando Veríssimo


Vivemos cercados pelas nossas alternativas, pelo que podiamos ter sido.

Ah, se apenas tivéssemos acertado aquele número (unzinho e eu ganhava a sena acumulada), topado aquele emprego, completado aquele curso, chegado antes, chegado depois, dito sim, dito não, ido para Londrina, casado naquela época, feito aquele teste...

Agora mesmo neste bar imaginário em que estou bebendo para esquecer o que não fiz - aliás, o nome do bar é Imaginário, sentou um cara do meu lado direito e se apresentou:

- Eu sou você, se tivesse feito aquele teste no Botafogo.

E ele tem mesmo a minha idade e a minha cara e o mesmo desconsolo.

- Por que? Sua vida não foi melhor do que a minha?

- Durante um certo tempo, foi. Cheguei a titular. Cheguei à seleção fiz um grande contrato

Levava uma grande vida, até que um dia...

- Eu sei, eu sei... disse alguém sentado ao lado dele.

Olhamos para o intrometido... tinha a nossa idade e a nossa cara e não parecia mais feliz que nós, ele continuou:

- Você hesitou entre sair e não sair do gol, não saiu, levou o único gol do jogo, caiu em desgraça, largou o futebol e foi ser um medíocre propagandista.

- Como é que você sabe?

- Eu sou você, se tivesse saído do gol, não só peguei a bola como me mandei para o ataque com tanta perfeição que fizemos o gol da vitória.

Fui considerado o herói do jogo no jogo seguinte, hesitei entre me atirar nos pés do atacante e não me atirar, como era um herói, me atirei... levei um chute na cabeça não pude ser mais nada.

Nem propagandista, ganho uma miséria do INSS e só faço isto: Bebo e me queixo da vida, se não tivesse ido nos pés do atacante...

... ele chutaria para fora.

Quem falou foi o outro sósia nosso, ao lado dele, que em seguida se apresentou:

- Eu sou você se não tivesse ido naquela bola, não faria diferença não seria gol.

Minha carreira continuou, fiquei cada vez mais famoso, e agora com fama de sortudo também, fui vendido para o futebol europeu, por uma fábula.

O primeiro goleiro brasileiro a ir jogar na Europa embarquei com festa no Rio...

- E o que aconteceu? perguntamos os três em uníssono.

- Lembra aquele avião da VARIG que caiu na chegada em Paris?

- Você...

- Morri com 28 anos.

- Bem que tínhamos notado sua palidez.

- Pensando bem, foi melhor não fazer aquele teste no Botafogo.

- E ter levado o chute na cabeça...

- Foi melhor, continuou, ter ido fazer o concurso para o serviço público naquele dia. Ah, se eu tivesse passado...

- Você deve estar brincando, disse alguém sentado à minha esquerda.

Tinha a minha cara, mas parecia mais velho e desanimado.

- Quem é você?

- Eu sou você, se tivesse entrado para o serviço público.

Vi que todas as banquetas do bar à esquerda dele estavam ocupadas por versões de mim no serviço público, uma mais desiludida do que a outra.

As conseqüências de decisões erradas, alianças fracassadas, pequenas traições, promoções negadas e frustração, olhei em volta...

... eu lotava o bar, todas as mesas estavam ocupadas por minhas alternativas e nenhuma parecia estar contente.

Comentei com o barman que, no fim, quem estava com o melhor aspecto ali...

... era eu mesmo, o barman fez que sim com a cabeça, tristemente.

Só então notei que ele também tinha a minha cara, só que com mais rugas.

- Quem é você? - perguntei.

- Eu sou você, se tivesse casado naquela época.

- E?

Ele não respondeu só fez um sinal, com o dedão virado para baixo.

Creio que a vida não é feita das decisões que você não toma, ou as atitudes que você não teve, mas sim, aquilo que foi feito!

Se bom ou não, penso, é melhor viver do futuro que do passado!

3 comentários:

Edivando disse...

Taaaaaaaa Pooooorra....
Nunca tinha lido este texto, assisti o Efeito Borboleta...
Muito Legal, Veríssimo como sempre !!!

Jean Madson disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Jean Madson disse...

muito bom o texto, acho que, salvo engano, ele já foi interpretado no Fantástico, por Marcos Nanini fazendo as várias versões de si próprio. Só uma ressalva, na última frase: http://www.marciobamberg.com.br/portal_conteudo_pitada_01.html